Pular para o conteúdo
ENTREPOSTO.tech

Como a IA é testada contra desinformação eleitoral, e o que o Brasil tem a ver com isso

Relatório da Anthropic mostra que o Claude recusava pedidos maliciosos isolados, mas podia deixar passar campanhas divididas em tarefas inofensivas. O Brasil foi um dos três países usados nos testes.

Por Entreposto.tech · Análise editorial · 4 min de leitura

Publicado em · Atualizado em

Ilustração de balões de conversa ligados por uma linha tracejada que leva a uma urna com sinal de alerta, dentro de um anel de detecção.
Ilustração: ENTREPOSTO.tech

Em resumo

  • Em testes externos nos EUA, em Israel e no Brasil, o Claude recusou pedidos maliciosos isolados, mas podia deixar passar campanhas divididas em tarefas aparentemente inofensivas.
  • Segundo a Anthropic, só cerca de 0,01% das conversas de usuários americanos pediam recomendação de voto; o uso político mais comum é informativo.
  • A empresa diz ter criado classificadores para abuso em várias etapas e banido contas de operações de notícias falsas. Os números são da própria Anthropic.

A Anthropic, empresa responsável pelo Claude, publicou em 14 de outubro de 2026 um relatório sobre as salvaguardas que adotou para as eleições de meio de mandato dos Estados Unidos. O texto revela quanto as pessoas usam IA para falar de política, qual falha apareceu nos testes e quais casos de abuso a empresa diz ter barrado. O Brasil entra na história porque foi um dos três países usados para pôr as defesas à prova.

Todos os números abaixo são da própria empresa, não de uma auditoria independente.

O que as pessoas pedem à IA sobre política

A Anthropic analisou uma amostra de 250 mil conversas de usuários americanos no Claude.ai, de 21 a 27 de setembro. Cerca de 5,75% tocavam em política, políticas públicas ou temas sociais, e 0,51% eram especificamente sobre eleições ou voto.

O dado mais curioso é o que quase ninguém pede: só cerca de 0,01% das conversas eram pedidos de recomendação de voto. O uso mais comum é informativo, como entender o que um candidato defende, acompanhar notícias ou pesquisar para trabalhos. Pedidos que violam as regras eleitorais da empresa apareceram em cerca de 0,002% das conversas.

O teste que expôs a falha

A empresa contratou duas organizações independentes, o Institute for Strategic Dialogue e o McCain Institute, para testar as defesas nos Estados Unidos, em Israel e no Brasil. Os analistas começaram com pedidos diretos de desinformação e depois dividiram campanhas inteiras em tarefas que, sozinhas, parecem inofensivas: pesquisa de público, criação de sites de notícias, redação de conteúdo e plano de distribuição.

O resultado, segundo a Anthropic: o Claude recusou de forma confiável um pedido malicioso isolado, mas podia deixar passar uma campanha maliciosa espalhada em muitos pedidos aparentemente inocentes.

O que mudou depois disso

A empresa diz ter adicionado classificadores para identificar uso malicioso em várias etapas, como a criação de perfis falsos e sites de notícias falsos voltados ao debate político. Também afirma ter reforçado a detecção de atores estatais estrangeiros e criado salvaguardas para riscos locais nos três países testados, todos com grandes eleições nacionais em 2026.

Para o eleitor americano, o Claude passará a usar informações oficiais de votação, obtidas da organização Democracy Works, e a mostrar resultados atualizados na noite da eleição.

Casos reais de abuso

A Anthropic descreve dois exemplos que barrou. No primeiro, operadores estrangeiros de um site de notícias falso usaram o Claude para produzir cobertura das eleições americanas favorável a narrativas da Rússia, do Irã e da Coreia do Norte. No segundo, agentes mal-intencionados geraram notícias fabricadas para atrair público americano e ganhar com publicidade. As contas envolvidas foram banidas.

Nossa leitura

Esta seção é opinião do ENTREPOSTO.tech.

O achado mais importante não é o número de abusos, e sim o formato do risco. Um sistema que recusa o pedido óbvio, mas aceita o mesmo trabalho em pedaços, mostra que a proteção de um pedido isolado não basta. A desinformação eleitoral costuma ser uma cadeia de tarefas banais: pesquisar o público, montar um site, escrever textos, distribuir.

Para o leitor brasileiro, a lição vale para qualquer ferramenta de IA, de qualquer empresa: a defesa precisa olhar o padrão de uso, não só cada mensagem. Também vale lembrar que se trata de um relatório publicado pela própria empresa. Auditorias externas e regras claras, como as discutidas no debate do marco legal da IA no país, continuam sendo o contrapeso necessário.

Que nível de transparência você espera das empresas de IA em período eleitoral?

O que sabemos

  • A Anthropic publicou em 14 de outubro de 2026 o relatório sobre salvaguardas para as eleições de meio de mandato dos EUA.
  • Numa amostra de 250 mil conversas americanas de 21 a 27 de setembro, cerca de 5,75% tocavam em política e 0,51% em eleições ou voto.
  • O Institute for Strategic Dialogue e o McCain Institute testaram as defesas nos EUA, em Israel e no Brasil.
  • Contas ligadas a um site de notícias falso com narrativas pró-Rússia, Irã e Coreia do Norte, e a notícias fabricadas para ganhar com publicidade, foram banidas.

O que ainda precisa ser esclarecido

  • Quão eficazes os novos classificadores são na prática, já que não há auditoria independente dos resultados.
  • Quais salvaguardas específicas foram criadas para os riscos locais do Brasil.
  • Se recursos como as informações oficiais de votação chegarão a eleitores fora dos EUA.
Compartilhar WhatsApp LinkedIn
  • #anthropic
  • #claude
  • #eleições
  • #desinformação
  • #ia e política

Newsletter

O que está em alta, sem ruído

Um resumo diário com o contexto por trás dos assuntos mais buscados. Sem spam, cancelamento em um clique.